Desde
a primeira mulher a receber um diploma de graduação no Brasil, Rita Lobato
Velho Lopes (1866 — 1954), cada vez mais as brasileiras vêm ocupando esse
espaço. Segundo o Censo da Educação Superior de 2016, as mulheres, que são a
maior parte da população nacional, já representam 57,2% dos estudantes
matriculados em cursos de graduação no país. Entretanto, estudos feitos pela Academia
Brasileira de Ciências (ABC), constatou que a proporção de mulheres é muito
pequena em todas as áreas de pesquisa da instituição, sendo o valor máximo de 25%
nas ciências biológicas e apenas 1% em engenharia (pior cenário no quesito
igualdade de gênero).
| Rita Lobato, primeira mulher a se formar e exercer a Medicina no Brasil. |
Segundo a socióloga política e acadêmica Elisa Reis escolha da carreira se deve muito mais a cultura apreendida durante a infância e adolescência do que a um fator biológico. Dado isso, há uma distinção entre brinquedos oferecidos para meninas e para meninos, na maioria dos casos as meninas não tem contato com cultura social mais ligada a temas tecnológicos, e sim incentivamos as tarefas domésticas e cuidados. Desse modo, a assimetria de gênero no meio profissional é frequentemente associada às responsabilidades atribuídas para o sexo feminino em suas vidas particulares, como por exemplo ser mãe e até mesmo relacionada a idiossincrasias de saúde largamente atribuídas a questões do sexo feminino (MENDES, 2015).
Apesar da falta de incentivo na infância e de historicamente a ciência ser vista como uma atividade realizada por homens (LETA, 2003, BANDEIRA, 2008), futuras aspirantes na ciência se espelham em mulheres que lutaram e lutam para estarem presente nesse espaço. Exemplificando, Marie Sklodowska Curie (1867 – 1934), a única mulher figurava entre os 29 cientistas da conferência de Solvay, em Bruxelas, Bélgica, além de ser a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel e a única pessoa a ganhar em duas áreas distintas (física e química), simboliza o status quo da presença da mulher na ciência ao longo do séc. XX, (Revista Humanidades e Inovação v.7, n.2 – 2020).
![]() |
Registro dos 29 participantes da quinta edição da Conferência de Solvay, em Bruxelas, Bélgica, 1927.
Fonte: Extraído de Bolzani (2017). |
Em 2020, três pesquisadoras foram contempladas nas áreas de ciência em uma mesma edição do Nobel. Em 120 anos do prêmio, em um universo de mais de 600 laureados em ciência, menos de 4% eram mulheres. As vencedoras de 2020 foram Andrea Ghez, (Física ); em Química, levaram Emmauelle Charpentier, do Instituto Max Planck, da Alemanha, e Jennifer Doudna, da Universidade da Califórnia, em Berkeley; e a poeta americana Louise Glück, professora da Universidade Yale. A reportagem do Estadão traz também relatos de mulheres de como é conviver com o machismo estrutural em um ambiente onde prevalece um alto nível de educação. Alguns relatos da entrevista:
“Sexismo disfarçado de bom
conselho”
“Micro agressões diárias”
“Ofensas ditas em tom de brincadeira, como se fossem apenas uma piada”
“Os colegas de trabalho se sentem à vontade de serem invasivos com a vida
das mulheres. Eu viajo muito para congressos e frequentemente escuto coisas
como: ‘Mas seu marido deixa? Você trabalha demais, ele vai deixar você.’ Coisas
que a gente nunca vai ouvir alguém perguntando para um homem”, conta a
matemática Jaqueline Mesquita, de 35 anos, professora da Universidade
de Brasília.
“Tem um aluno querendo fazer
doutorado comigo e ouvi colegas insinuando se ele estava interessado na minha
pesquisa ou em outra coisa”, diz Jaqueline.
“Se a gente quiser ter voz, tem
de falar mais alto, tem de bater a mão na mesa. Aí sempre vem alguém falando:
‘Calma, não precisa ficar estressada’. Dizem que a gente é desequilibrada. Se
um homem age assim, as pessoas ficam impressionadas. Mas se a gente fala baixo,
também ninguém escuta. Tem de se moldar ao ambiente”, diz Andrea de Camargo.
“A
gente acha que é só um fato super marcante pode ser considerado preconceito,
mas aí percebe que são microagressões, aquele pequeno comentário, aquele olhar,
aquele julgamento que faz muitas colegas acabarem ficando no meio do caminho,
estancando onde não gostariam de ter parado”, diz Fernanda Werneck.
Portanto,
se faz necessário o incentivo da quebra do pensamento da existência de
características intrínsecas e divisões naturais de funções na sociedade,
reservando a homens e mulheres, como se houvessem caminhos distintos para
aprender e conhecer por apenas diferença do sexo. A ciência precisa de mulheres
para sobreviver, pois ao excluir as mulheres pesquisadoras, estamos limitando o
contingente disponível de pessoas talentosas à metade da humanidade (Ferrari et
al, 2018).
Fontes:
Revista Humanidades e Inovação v.7, n.2 - 2020
http://www.abc.org.br/2019/03/08/por-que-as-meninas-nao-querem-fazer-ciencias-exatas/
https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2020-10-12/nobel-2020-e-o-2-da-historia-que-mais-premiou-mulheres-com-4-de-11-escolhidos.html
MENDES, Janaina. Mulheres na Física Médica no Brasil : principais características e desafios. Janaina Dutra . Gênero. Vol. 16, 2015.
FERRARI, Nathália C. et al.Geographic and Gender Diversity in the Brazilian Academy of Sciences.An. Acad. Bras. Ciênc. Vol. 90, 2018.
BOLZANI, Vanderlan da Silva. Mulheres na ciência: por que ainda somos tão poucas? Ciência e Cultura [online]. Vol. 69, 2017. ;
LETA,
Jacqueline. As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um
perfil de sucesso. Revista Estudos Avançados. Vol. 17, 2003.


Nenhum comentário:
Postar um comentário